(Pampas - Rio grande do Sul)Escrevo tempo.
Em meus ouvidos se acentua o tintilar das castanholas. Música flamenca que ouço, como se viesse de longe. Aprecio músicas com componentes étnicos. Força latina. Exuberância feminina.
Hoje, no Rio Grande do Sul estou. Farroupilha.
Noite fria, aquecendo meu pensamento. Relembro.
Lareira acesa. Esqueço dor. Me aqueço e deslembro.
Dedilho. De vez em quando ouço o chiar da chaleira.
Água quente, encho a cuia de chimarrão.
Inverno.
Dedilho entre erva e cuia, uma e outra mais.
Algumas vezes me sinto mais brasileira tchê.
Descendência luso-polonesa de radicação sulista.
Paranaense nata. Brasileira soro.
Concentro-me em minha identidade sulista. Intensifico-a. Recrio novos tons.
Perene re-inventar-se. Mulher brasileira em primeiro lugar. Uma prenda.
No ar, castanholas, vestidos compridos, decotes acentuados, sapatos delicados, adornos nos cabelos... ativados pela musica, cultivo identificações.
É minha vasta genealogia que me remete às naus portuguesas e aos oceanos.
Francisca Brazil - minha bisavó portuguesa embarcou numa delas, cumprindo assim sua odisséia migratória.
Maria Brazil - minha avó brasileira, sabia mulher inculta, foi quem por geração manteve o Brazil no nome das mulheres da família. Então, em nome e forma o Brasil ditou-se aos liames de uma história - minha história.
Este Brasil está plasmado em mim. Deixa lastro, faz história. Faz semente e matéria vibrante.
Ao materializar-se, recria um universo de correspondências que são indícios de minhas inquietações!
Estou no sul. Já estive na Amazônia.
A floresta é prenhe e plena. Madeira, Manaus de barco, quatro dias.
Reconheço o que há de Tupi Guarani aqui.
Dancei forró e amei a exuberância nordestina.
Vi o vento dançando nos canaviais.
Depois Diamantina, Chapada dos Guimarães, Guimarães Rosa, (com ele aprendi o segredo das sílabas). Sertão veredas e ser tão verdade.
Orlando Villas Boas, causa admiração.
Rondon, incontestável herói.
Comi tucumã e tacacá, não achei tão bom, sapoti.
Graviolas, delicioso fruto da terra!
Curitibana estou, caipira sou.
Esta mistura de conteúdos, gênero, prosa, verso, com rima e quase sem rumo, torna-me mais Brasil. E no Brasil as margens são plácidas!
Foi ao sul que nasci.
Engenhosidade sulista, estranheza européia.
Quando menina, brincava de admirar as estrelas. Às noites, deitava no chão e por incontáveis horas, contemplava. Parece que vivia uma outra experiencia do tempo.
Cruzeiro do sul, sempre prende meus olhos.
Regionei-me Sul.
Norteei-me Leste.
Orientada estou.
Vivi em Salto Del Guairá. Divisa territorial. Língua - o guarani.
Sotaque fronteiriço. Peso Paraguaio. Terra Rocha.
Caminhava entre os trigais.
Laguna terra de meus avós. Santa Catarina 1940.
Recente estive por lá.
Torres é quase divisa. Bebo chimarão por história que me precede.
O som do sotaque gaúcho me agrada. E os pampas possuem extraordinária beleza.
Às vezes me sinto uma verdadeira prenda!
Volto e revolvo.
Voltas que dou, caminhos que andei.
Prenda? O que será que isto quer dizer?!!
Tomada por significante deste porte, consultei dicionário.
É adorável!
Prenda = adereço, jóia, artefato, dom, dote, habilidade, qualidade, penhor, prêmio.
São estes os atributos da mulher do sul?
Haja Édipo! E mate!
Eros agindo. Eu re-agindo.
Ardis e tanto, de prenda ardente, que não se prende tão fácil assim!
Invento um modo, inverto um tempo, converto mais.
Deixo-me queimar nesta brasa viva! Assim forjo asas com desenhos que a existência vem fazendo, ao mutilar minhas verdades semi-lacradas, semi- cerradas, na imensidão de um nada enquanto atributo do todo.
Nesta imponderável claridade vislumbrada, diviso com o perdido, o sonhado e o esquecido.
É neste labirinto desolado, deslocado, de folhas e grafismos, que desvendo minhas marcas.
Apelo ao distante e norteio meu anseio por horizontes desconhecidos.
Alter-ação necessária aos itinerários de meus limites ordinários.
Encanto sem captura.
Mobilidade em difusão.